Seus Primeiros Usuários

Seus Primeiros Usuários

Vamos ser honestos: conseguir os primeiros usuários é uma das partes mais desconfortáveis de construir qualquer produto.

Porque quase ninguém quer ser o primeiro.

Pela teoria de difusão da inovação, só 13,5% das pessoas são early adopters por natureza. O resto só entra quando vê prova, marca, review, amigo usando, case, selo, ranking, print, autoridade.

Ou seja: se você acabou de criar algo, estatisticamente mais de 8 em cada 10 pessoas não são seu público agora.

E mesmo assim… toda empresa que você admira começou exatamente desse jeito: com um produto estranho, pequeno, imperfeito — e um grupo minúsculo de pessoas topando apostar.

O começo não é sobre escalar. É sobre não se enganar.


Não pense somente em super MVP, pense também em um Produto Mínimo Iterável.

O maior erro de quem está começando é tratar o MVP como uma “versão pequena do produto final”.

Não é.

O primeiro produto serve pra uma coisa só: ser mexido.

Produto mínimo iterável é aquele que:

  • alguém de fora consegue usar
  • gera comportamento real (não opinião)
  • quebra rápido
  • permite ajuste rápido
  • dá dados, não elogios

Mais de 90% das startups quebram. E os relatórios são repetitivos há anos: falta de demanda real, produto construído em isolamento, apego à ideia inicial.

Não é porque o fundador não trabalhou. É porque ele ficou tempo demais construindo sem fricção com gente de verdade.

Seu primeiro produto não precisa ser bonito. Ele precisa ser maleável.


Primeiros usuários não se convencem. São encontrados.

No começo, marketing tradicional é quase inútil.

Poucos querem testar o produto desconhecido de uma empresa inexistente.

Por isso, aquisição inicial é muito mais busca do que persuasão.

Você está procurando exceções:

  • gente que testa coisa nova por prazer
  • gente com um problema caro ou recorrente
  • gente frustrada com as soluções atuais
  • gente que já improvisa gambiarras

Se a pessoa precisa de um pitch pra entender por que isso é útil, ela não é seu primeiro usuário.

Primeiro usuário geralmente reage diferente. Ele não pede convencimento. Ele pede acesso.

Aqui, a fórmula não é anúncio. É:

  • mensagem direta
  • e-mail frio ultra específico
  • grupos pequenos
  • indicação
  • conversa um a um
  • observação silenciosa

Startup no início parece mais pesquisa de campo do que empresa.


O que realmente funciona no começo

Algumas atitudes que mudam tudo:

→ Cobre dinheiro o quanto antes

Não pra enriquecer. Pra acordar.

Usuário gratuito é educado. Usuário pagante é sincero.

Quem paga responde e-mail, reclama, compara, cancela, exige. Isso gera o tipo de informação que nenhum formulário gera.

Inclusive: estudos de SaaS mostram que usuários pagantes geram até 3x mais feedback acionável do que usuários free.

→ Faça também as coisas ''chatas''

Quase toda empresa grande começou fazendo coisas estranhas:

  • fundadores vendendo pessoalmente
  • onboarding manual
  • setups feitos no braço
  • produto adaptado caso a caso

Isso não é gambiarra. É mineração de sinal.

→ Lance cedo. Observe mais do que fala.

Quanto antes você lança, mais cedo a realidade começa a trabalhar pra você.

E quando alguém usa, seu trabalho não é explicar. É assistir.

Onde a pessoa trava. O que ela ignora. O que ela tenta fazer e não consegue. O que ela usa sem você pedir.

As pessoas mentem educadamente. O comportamento nunca mente.


Quem entra primeiro molda o que você se torna

Produto não evolui no vácuo. Ele é moldado pelas pessoas que chegam primeiro.

Isso é dependência de trajetória: as primeiras decisões criam o “esqueleto” de tudo que vem depois.

Tesla é um exemplo clássico.

O primeiro carro não era confortável nem acessível. Era caro, limitado, meio imprático. Mas quem comprou valorizava tecnologia, aceleração e ruptura.

Esse perfil moldou toda a linha da empresa.

Hoje, mesmo modelos familiares ainda carregam esse DNA: software primeiro, performance absurda, carro mais próximo de um produto tecnológico do que de um veículo tradicional.

Isso não foi decisão de marketing. Foi consequência dos primeiros usuários.

Quem você atrai no início decide o que você constrói sem perceber.


No começo, sua maior vantagem é que ninguém liga

Isso é libertador.

Você pode errar sem plateia. Testar sem reputação. Mudar sem pedir desculpa.

Churn no começo não é fracasso. É lapidação.

O único objetivo real da fase inicial é criar algo pequeno que:

  • encontre pessoas reais
  • gere uso real
  • destrua suas certezas
  • e seja fácil de mudar

Produto bom não nasce. Produto bom é lapidado até fazer sentido.

E é por isso que os primeiros usuários não são clientes.

São parte da construção.